segunda-feira, 25 de março de 2013

Sinto Falta dos Chicotes - Tiago Mi


Sinto Falta dos Chicotes

Tela inacabada de Marcos Fernandes

Não há chicotes. O ambiente é rico, cheio de vida, de água, de mata. Ao lado do jovem de uns vinte ou vinte e um anos, passa constantemente uma daquelas caminhonetes robustas, quatro por quatro, imponentes. O vidro é escuro. Não se enxerga o que acontece ali dentro. Mas sabe-se que há alguém no ar condicionado (o calor é insuportável), de olho no que está acontecendo do lado de fora.

Distante uma eternidade de toda a riqueza natural e material que o cerca, o garoto, sem saber quem o escravizou, segue com seu pensamento em casa, em suas princesas chorando de fome, vulneráveis, indefesas. Só assim consegue forças para caminhar, chegar ali, perto das seis da manhã, e ali seguir até o final da tarde.

O sol ao se pôr oferece uma das visões mais belas e sublimes da natureza, mas é difícil sentir prazer ao olhá-lo. As mãos e os braços estão dormentes. As formigas são famintas e têm um veneno feroz aos humanos. Na verdade, as formigas o percebem mais como humano do que aqueles que estão no ar condicionado, “observando” o desenrolar do seu trabalho.

Para ele, os Direitos Humanos não passam de um mero Discurso de Ética proposto pela Organização das Nações Unidas há alguns anos. Discurso que insiste em não se tornar prática, e que o garoto tomou conhecimento em um movimento social do qual participa em sua cidade. Nas horas vagas, esperançoso e convicto, luta ao lado de muitos para efetivá-los. Não só para ele, mas para todos seus pares. Ele sabe que a modernidade é cruel e desumana como dizem nas reuniões em que participa, pois sente na pele a face irracional de um mundo comandado pela ambição de alguns e ignorância de muitos.

Mas sem escolhas, o jovem adulto segue para colheita. Precisa sobreviver e sustentar sua pequena filha, uma princesa, linda como a mãe, que vive em um pequeno barraco. E não basta apenas o dinheiro para a janta de hoje. Ele se preocupa também com o inverno que logo vem. Lá, as safras já terão acabado, e não será mais necessária sua força para encher os sacos e sacos de batata que saem em enormes quantidades da terra. Quanto mais pesado o saco, mais ele recebe. Por isso, muitas vezes nem almoça. Não pode perder tempo. O inverno vai chegar, e a água de sua casa não é quente. Sua princesa, sorridente como todas as crianças, passa frio.

Para ter forças enquanto carrega quilos de batata nas costas, lembra de sua infância. Do tempo em que sua mãe era viva e, sem ter com quem ou aonde deixá-lo, o levava para a lavoura. Foi naquele tempo que aprendeu a colher a uva. Queria ajudar sua mãe a encher as caixas. Quanto mais caixas, mais recebia pelo pequeno valor destinado ao trabalhador de uma uva que não era dela, mas de um outro cidadão, muito respeitado, do qual ela não conhecia e enxergava apenas de relance dentro de uma outra imponente caminhonete da época que circulava pela plantação.

O pai, infelizmente o rapaz não conheceu. Quando sua mãe morreu sem explicações dos médicos da nossa saúde pública, não pensou duas vezes: com apenas treze anos abandonou a escola para alívio de alguns professores e diretores. Precisava sobreviver. E não foi fácil. Na verdade, o que mais o surpreende é estar vivo, apesar de tudo. Chegou a vender droga para garantir alguns almoços. Relembra que foi a única vez em que foi percebido pela sociedade que o rodeia. Queriam-no preso.

Foi quando, por força de Deus (segundo os pastores o explicam), conheceu a menina que agora é mãe de sua princesa. Decidiu, então, levar uma vida “digna” de trabalhador. E segue tentando. Mas como levar uma vida digna de trabalhador em uma cidade cruel, desumana e preconceituosa, em que os senhores respeitados são esses que estão no ar condicionado, e que muitas vezes vemos tomando as decisões políticas mais importantes para nossa cidade? Decisões estas que deveriam mudar as estruturas que o escraviza, mas que ao contrário, fortalecem a escravidão, imposta e invisível.

Enquanto não entrar em desespero, e não sei como não entra, e não invadir um comércio de um bom cidadão para garantir o almoço de suas princesas, permanecerá invisível. Do contrário, se invadir, roubar alguns reais e for finalmente notado, esse bom cidadão atacado que paga seus impostos e vota nos senhores do ar condicionado, se chocará, e exigirá da polícia e das autoridades ações efetivas. E essas autoridades ouvirão o bom cidadão, e aumentarão a repressão aos marginais, e suas palavras encontrarão eco nas redes sociais e em colunistas, grandes velhos moralistas, de jornais. E encherão nossas praças de câmeras, e investirão nosso dinheiro público em controle público, enquanto deixamos de lado o investimento na emancipação do jovem. Assim, nossos vereadores continuarão sobrevivendo e se reelegendo a base de caronas e favores aos seus eleitores, e o nosso executivo seguirá ouvindo e sendo aplaudido pelos bons cidadãos que pagam seus impostos e que podem aproveitar nossas festas milionárias em seus camarotes. E assim tudo ficará certo, na miopia causada pela ignorância do nosso tempo.

Quanto ao garoto preso (até que em fim!), a hipocrisia anuncia o dever cumprido. Porém, não poderá mais colher a batata, ou a uva, tampouco será capaz de carregar a madeira das empresas que tomam conta de nossa cidade. Mas não há com que se preocupar. Como ele, há milhares, fora das escolas, necessitando sobreviver. Mão de obra escrava não falta em uma cidade cruel, desumana, preconceituosa e politiqueira. Invisíveis, eles seguirão colhendo nossa riqueza, em um ambiente rico, observados por nossos senhores respeitados em seus grandes carros imponentes, mantidos por nossos grandes políticos discursadores. Só sinto a falta do chicote.

Um abraço,
Tiago Mi.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Controle - Tiago Mi


Controle




Controle. Somos aficionados por ele. Controlamos nossos jovens nas escolas. Tentamos controlá-los nas ruas com câmeras e com nosso moralismo. Aplicamos penas quando “saem” dos caminhos que achamos serem os “corretos”. Julgamos suas ações quando parecem predatórias, e nos esforçamos para puni-los. Colocamos placas em nossas praças e Centro de Eventos: Proibido andar de bicicleta, skate, patins, etc. Escrevemos também, ali mesmo, no banheiro, “Sorria, você está sendo filmado”. Alguns tentam diminuir a idade penal para podermos punir com maior rigor os jovens de dezesseis anos. Aqueles mesmos que já são punidos desde que nasceram, por terem nascido, por azar, em nossa sociedade.

Quando um jovem, por exemplo, de quatorze anos, que vive sob a responsabilidade do Estado (Poder Público), - porque por algum motivo é impossibilitado de viver com a família -, dá problemas, o enviamos à Fundação Casa. Nós o punimos. Mas não punimos os responsáveis, próprio Poder Público, por não cumprirem com seu dever de proporcionar os direitos que aquele mesmo garoto tem garantido em Constituição. Controlamos e punimos os que não têm forças para se defenderem. Perdemos toda a nossa energia controlando os que são incapazes de gerar grandes danos à sociedade individualmente, e não controlamos aqueles dois ou três que administram mais de quarenta milhões de reais por ano, dinheiro nosso, dinheiro público, permitindo que façam o que acham que devem fazer com toda a nossa riqueza. Não temos câmeras em salas de reuniões que definem como será utilizado nosso dinheiro da Saúde Pública. Nem nas salas de licitações, ou nas reuniões que decidem como “gastaremos” mais de um milhão e quinhentos mil reais por ano com a nossa Merenda Escolar.

O resultado de focarmos todo nosso potencial controlador e conservador em “onde o muleque pode andar de skate”, ou “olha a música que eles ouvem”, é a presença em nossa cidade de “empresas” e “ONGs”, denunciadas pelo Ministério Público por fazerem parte da Máfia da Merenda, e por desviarem dinheiro público destinado à saúde (nosso dinheiro), para campanhas políticas e para os bolsos de alguns “Senhores”. Dinheiro esse, sujo de sangue. Bolsos sujos de sangue. Férias na praia sujas de sangue. Sangue do seu pai que morreu por falta de um atendimento médico decente, por falta de médicos. Sangue da sua espera para ser atendido. Sangue do seu desespero por ter a saúde de seu filho e de sua filha dependentes da nossa Saúde Pública.

Nós, preocupados em controlar e punir nossos jovens, permitimos tranquilamente que o dinheiro público (nosso dinheiro), que deveria ser investido na alimentação das nossas crianças e em nosso atendimento médico, seja desviado por e para quadrilhas da pior estirpe de criminosos, segundo o Ministério Público do Estado de São Paulo e a Polícia Federal denunciaram.

Nossas crianças e adolescentes precisam ser educados, fundamentado em uma educação emancipadora, formadora de sujeitos, éticos, criadores, contestadores, utópicos. Uma educação que seja desenvolvida com eles, e não para eles. Para assim, talvez, aprendermos também tudo o que eles podem nos ensinar. E com eles, fazer a transformação necessária na sociedade e construir um espaço do qual possamos um dia nos orgulhar. Como diz Confúcio: Eduque as crianças e não precisarás castigar os homens. Com relação aos jovens, acredito que seja por aí que nossas energias devam se voltar.

Quanto ao controle, aí sim, devemos focar em nossos políticos, empresários e ONGs que atuam com dinheiro público. Esses devem receber o rigor da lei, o rigor das punições. Esses devem ser os nossos vigiados. São eles quem devem sorrir por estarem sendo filmados, e quem sabe escrevermos em uma placa e pendurarmos nos locais de decisões do poder: Proibido desviar dinheiro público.

Um feliz Natal,
Tiago Mi.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A Sociedade dos Subestimados


A Sociedade dos Subestimados



É preciso não esquecer
Não subestimar
Diante da Arrogância do poder
A Força dos que se Levantam
Daqueles que querem ser
Impedidos de ser
Em silêncio, se faz aumentar

De cima do Pedestal
Não se vê o sofrimento
Causado não por forças naturais
Mas pela organização dos homens
Pela falta de conhecimento
Pelos interesses dos Ignorantes
Pela Politicagem dos Arrogantes
Dominantes de cargos
Que aqueles que sofrem
Elegeram

Cegos pela prepotência
Não perceberam
Que os pedestais estavam sendo cortados
Os absurdos denunciados
E aos poucos, “como que num gesto articulado”
Desconstruídas as ditas verdades
Dos que chamamos Guardiões do Atraso

Era tarde quando notaram
Caídos, sentados, ainda em guarda
Munidos pelo cinismo anunciado
Do auge de sua Imponente estada
Surgiu, visivelmente notado
O desespero por se perder os privilégios
Dos acordos inescrupulosos firmados

Ou muda-se a postura, os interesses, abre-se para o diálogo
Ou mudamos os postados
Num processo que só foi iniciado
E que será sempre subestimado
Pelos que crêem estarmos fadados
A viver eternamente encabrestados

Um salve à união dos conscientes
Tiago Mi

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Através do Diálogo ou da Lei


Através do Diálogo ou da Lei

Já escrevi neste espaço que a vida humana impõe limites, fundamenta normativamente uma ordem, tem exigências próprias. Impõe também conteúdos: há necessidade de alimento, casa, segurança, liberdade e soberania, valores e identidade cultural, plenitude espiritual (funções superiores do ser humano em que consistem os conteúdos mais relevantes da vida humana). Se não comemos, morremos de fome; se não nos abrigamos, morremos de frio. A vida humana exige o desenvolvimento em seus diversos aspectos: físico-biológico, histórico-cultural, ético-estético, científico e até místico espiritual. Portanto, precisamos de uma estrutura que possibilite com que todas as crianças possam se desenvolver em todos estes aspectos, conscientes de que existe uma diferença fundamental entre o que torna a vida agradável e o que a torna possível.
Em Audiência Pública exigida por jovens e conquistada, foi apresentada por cerca de trezentos jovens, organizados em diversos movimentos juvenis, grêmios estudantis, alunos, professores e entidades, mais de quinhentas propostas às autoridades que continham estes dois tipos de direitos garantidos em constituição, mas que por aqui são violados: direitos que tornam a vida possível e direitos que a tornam agradável.
A estrutura da Saúde Pública deveria tornar a vida possível, assim como a Ética deveria ser o fundamento de qualquer administração pública. Estive no P.A. nesta terça-feira de madrugada e vi a placa informando à população que o Pronto Atendimento é obra da Prefeitura Municipal de São Miguel Arcanjo. Porém, a história verdadeira é outra. A Associação São-Miguelense de Assistência Social e Saúde (ASASS) é a entidade responsável pela construção do prédio do Pronto Atendimento médico de São Miguel Arcanjo. Com o apoio da comunidade são-miguelense, o ASASS em pouco mais de cinco anos reuniu recursos financeiros, doações de material de construção civil, material hospitalar, investiu na construção do Pronto Atendimento e em sua aparelhagem e o doou à Prefeitura Municipal de São Miguel Arcanjo no ano de 2007, com quase 100% das obras concluídas. A partir de então, uma parte da Saúde Pública do município foi terceirizada e entregue a uma outra Entidade, de uma outra cidade, que infelizmente é incapaz, como demonstraram os jovens em Audiência Pública, de gerar o atendimento adequado à população de São Miguel Arcanjo. Além da qualidade necessária no atendimento à saúde, o que falta também é a Ética necessária para informar o que é correto, e a valorização à comunidade de São Miguel Arcanjo pela obra essencial que construiu em grande parte, e que sustenta até hoje a Saúde Pública da nossa cidade.
Quanto à Merenda Escolar, neste ano é investido um montante de aproximadamente um milhão e meio de reais a uma empresa para enlatar o alimento e servir aos nossos alunos durante as aulas. Significa que em uma cidade rodeada por fazendas, não produzimos a nossa própria merenda escolar. Tão lamentável quanto a ação Política que investe nosso dinheiro não em nossa agricultura familiar, mas em uma empresa também de uma outra cidade, é o fato desta estar envolvida no que o Ministério Público do Estado de São Paulo denunciou de “Máfia da Merenda”. Na cidade de São Paulo, contratos com outra empresa também denunciada já foram quebrados. Os jovens em Audiência Pública exigiram o mesmo por aqui, mas infelizmente a nossa “democracia” ainda é autoritária. Felizmente, nossos jovens já aprenderam a lutar. Falta agora, nossos governantes aprenderem a ouvir, e isso acontecerá. Poderá ser através do diálogo ou da lei. Vai depender do amadurecimento democrático de quem está no poder.

Um abraço,
Tiago Mi.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Nós Somos Aqueles

Nós Somos Aqueles


Foto de Duda Corrêa - Passeata do Movimento Capital Juvenil

O pensador esloveno Slavoj Zizek, depois de escrever por duzentas e tantas páginas sobre a realidade atual do planeta, dos interesses por traz das decisões dos que detém o poder político e econômico das nações e corporações mundiais, e de buscar caminhos para realizarmos a transformação necessária do mundo moderno que submete mais dois bilhões e meio de pessoas a situações precárias de vida, escreveu: Nós somos aqueles por quem estávamos esperando.

Como a vida acontece nas cidades, é nas cidades que transformações necessárias devem acontecer. Mas por aqui nós ainda somos aqueles que mantêm as coisas como são. O conservadorismo nos ameaça. O Brasil e São Miguel Arcanjo seguem os padrões constatados pelo filósofo Michel Foucault, em seu livro “Vigiar e Punir”, quando comenta que a sociedade moderna é perpassada por “interpretações de fachada”, visíveis e perceptíveis por todos, que ele chama de conteúdos “manifestos”, existindo precisamente para esconder as “interpretações escondidas”, invisíveis e opacas para todos, que ele chama de conteúdo “latente”. Isto é, o senso comum tem uma ideia da nossa realidade. Ideia essa que esconde as reais causas dos nossos problemas, ou escondem os próprios problemas.

Os conservadores são-miguelenses espalhados por todas as esferas da sociedade se baseiam nessas interpretações de fachada para definir suas ações, suas opiniões e seus votos. Sem compreender as causas reais dos nossos problemas e sem enxergar os problemas camuflados, ajudam a nos manter em uma realidade em que, segundo o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome nos alerta, é caracterizada por uma alta participação da população extremamente pobre. Em São Miguel Arcanjo, o índice de Extrema Pobreza é o dobro da média de Extrema Pobreza do Estado de São Paulo (CENSO/2010). Mas infelizmente, para nós, a pobreza é naturalizada. Tão naturalizada, que nos parece impossível permitir com que a maioria da população são-miguelense viva bem, coma bem, more bem, trabalhe bem.

Outras questões tão ou mais graves quanto essa mantém as sociedades como estão. A manutenção da realidade vem também do instinto de autoconservação de quem detém o poder, aliada à omissão de quem compreende a realidade. O instinto de autoconservação dos que chamamos de “Guardiões do Atraso”, faz com que as ações destes, detentores do poder econômico, político e social, e de todos os outros omissos ou que não enxergam outras formas de viver, sejam voltadas à manutenção do status quo. O medo da mudança faz com estes homens privilegiados em determinadas sociedades, utilizem destes privilégios e do poder a eles atribuído, para impedir que outras possibilidades e oportunidades estejam presentes no cotidiano de suas vítimas. Quando as vítimas se entendem submersas nesse sistema e agem para transformá-lo, cabe aos “Guardiões do Atraso” subjulgar e enfraquecer as ações que visam a mudança da realidade. Estes também se utilizam do poder que muitas vezes eles próprios se atribuem, para ameaçar, amedrontar e perseguir aqueles que se posicionam de forma contrária ou diferente a eles, sem levar em consideração um dos fundamentos mais sagrados e necessários da democracia: a liberdade de expressão.

A perseguição política, a ameaça do poder a posicionamentos divergentes ou críticos é crime grave. Em período eleitoral, é crime gravíssimo. A democracia permite que nos posicionemos. A realidade atual exige. Trata-se de um dever Ético e uma obrigação moral deixarmos de ser aqueles que mantêm as coisas como são, e nos transformarmos naqueles a quem estávamos esperando, naqueles que farão a diferença. Mas como disse ao Governador em carta aberta, o conservadorismo, aqui, nos ameaça de morte.

Um abraço,

Tiago Mi.



Mestre em Ciências pela Universidade de São Paulo – Sociologia Política e Ética (USP). Área de Concentração: Práticas Políticas e Relações Internacionais. Membro do Observatório de Estudos de Políticas Públicas e Pensamento Latino-Americano da USP e do Núcleo Revitalizando Culturas da Universidade do Sul de Santa Catarina. Possui treze anos de experiência com crianças e adolescentes que vivem sob a violação de direitos. É sócio-fundador e Vice-Presidente da ONG Ação Cultural Terra Pura em Florianópolis – SC, Presidente do ASASS (Associação São-Miguelense de Assistência Social e Saúde), idealizador e coordenador do Projeto Faz Parte Desse Nosso Carnaval e sócio-fundador do Movimento Capital Juvenil.


segunda-feira, 23 de julho de 2012

Carta aberta de um são-miguelense ao Governador Geraldo Alckmin

Carta aberta de um são-miguelense ao Governador Geraldo Alckmin



Caro, Governador do Estado de São Paulo.

Não sei do senhor, mas o conservadorismo me assusta. Ele nos ameaça. Imagino como deve ser difícil para o senhor, senhor Governador, trabalhar de forma Ética e transformar uma realidade cruel e desumana como é a do nosso Estado. Por isso te escrevo. Não acreditava que o senhor sabia da existência da minha cidade, pois vivo e te escrevo de um dos municípios com os piores índices de indicadores sociais do seu Estado. Minha região ajuda com muita força a manter o seu Estado, senhor Governador, como um dos mais desiguais do Brasil e da América do Sul, mesmo estando entre os mais ricos. Alguém precisa te informar a respeito, para que possamos reverter essa realidade e o senhor poder se orgulhar de sua administração. Por isso te escrevo, senhor Governador.

Não sei se o senhor teve a oportunidade de conhecer as escolas de minha cidade nesse dia de festas da sua visita. Os colégios são precários. Principalmente os de responsabilidade de sua administração. Faltam tampas nos vasos sanitários, senhor Governador.  Precários são também os salários e a estrutura de trabalho dos nossos professores e diretores de escolas. Mais precária ainda e, como resultado da política educacional imposta, é a qualidade da educação recebida pelos nossos jovens, as principais vítimas da sua incapacidade, senhor Governador, e de nossos políticos, de serem éticos. Nossos jovens fogem das escolas.

Após mais ou menos 50 anos em que o homem pisou na lua, não acredito que eu tenha que explicar aqui, já na segunda década do século vinte e um, para o senhor, a importância das escolas serem dignas e de realizar um forte investimento em educação. Ou tenho? Por aqui, senhor Governador, nem sequer uma Escola Agrícola nós temos. E isso, se tratando de uma cidade apenas agrícola.

Infelizmente ainda realizamos por aqui uma política arcaica. Política da qual incluíram o senhor, infelizmente. Mas como disse, deve ser difícil para o senhor realizar uma política Ética. Essas casas populares estão há seis anos em construção. E apesar da necessidade das famílias em terem um lugar digno para viver, e do direito delas a uma política habitacional qualificada, nossos políticos fizeram questão de adiar a entrega das casas, deixando essas famílias a mercê das interpéries do mundo moderno, para apenas três meses antes da eleição em uma festa da qual o senhor participou. Acredita em nossa política quem quer ser enganado! Não se engane, Governador! Porque para nós, isso não é novidade. Já trouxeram até Padre famoso para subir no palanque junto aos nossos políticos.

Infelizmente, também, esses nossos políticos não têm coragem, ou não têm conhecimento, ou interesse em dizer essas verdades ao senhor. Nem os da situação, nem os da oposição. Salvo raras e honrosas exceções. Em minha cidade, poucos se posicionam diante da realidade e dos absurdos que acontecem. Isso acontece por omissão, por falta de conhecimento ético-social e/ou por covardia mesmo. O resultado, senhor Governador, é que vivemos diante de uma realidade em que mais de 70% da juventude são-miguelense vive sob vulnerabilidade social ou alta vulnerabilidade social, ou seja, sob forte violação de direitos (direitos estes - o senhor deve saber – que é de responsabilidade sua e de seus colegas de trabalho efetivar); vivemos diante de altos índices de gravidez na adolescência (quase o dobro da média de seu Estado), de uma quantidade assustadora de droga exposta à juventude (a cocaína é naturalizada), do número de dependentes químicos bem superior ao que somos capazes de tratar; do aumento insuportável e constante da prostituição infantil, do crack; da ausência de perspectiva de futuro, da existência de trabalho infantil semiescravo, da falta de oportunidades de emprego, dos nossos péssimos índices educacionais, das péssimas qualidades de nossas escolas, da precária estrutura da saúde pública, etc. Sem contar da ausência de esporte, cultura e lazer. Segundo a Fundação Seade, dados oficiais do seu gabinete, em uma escala que vai de um a cinco, quando um representa melhores indicadores sociais do seu Estado, e cinco, piores, estamos no nível cinco. O senhor não percebeu isso, senhor Governador, que aqui é um lugar esquecido política e institucionalmente? Não temos sequer um deputado trabalhando realmente por nós. De vez em quando, em épocas de eleições, alguns mandam umas migalhas parlamentares. Portanto, não se iluda com o semáforo. O senhor não é um dos nossos, que se ilude facilmente. Mas é claro que o senhor sabe que apenas uma realidade como a nossa, ausente de conhecimento, de crítica, de posicionamento, é capaz de manter o senhor aí e nós aqui, nessa situação. Até porque os Guardiões do Atraso dependem da nossa ignorância. O senhor não acha?

Escrevo, portanto, indignado, essa carta ao senhor e à sociedade são-miguelense, que infelizmente aceita tranquilamente essa nossa realidade cruel e desumana que enforca os sonhos e as vidas das nossas crianças e adolescentes. Porque por aqui, senhor Governador, em São Miguel Arcanjo, o conservadorismo nos ameaça de morte.

Um abraço,
Tiago Mi.
Tiago Mi é Mestre em Ciências – Sociologia Política e Ética - USP – e membro do Observatório de Políticas Públicas e Pensamento Latino-Americano também da USP. Possui treze anos de experiência com crianças e adolescentes que vivem sob a violação de direitos. É sócio-fundador e Vice-Presidente da ONG Ação Cultural Terra Pura em Florianópolis – SC, Presidente do ASASS (Associação São-Miguelense de Assistência Social e Saúde), idealizador e coordenador do Projeto Faz Parte Desse Nosso Carnaval e sócio-fundador do Movimento Capital Juvenil.

  

Uma Análise Sobre São Miguel Arcanjo

Uma Análise Sobre São Miguel Arcanjo

                                                                                                         Parte 1

                                         

                                                                                                   Parte 2 

                                         


quarta-feira, 18 de julho de 2012

A Estrutura Social é Obra dos Homens - Tiago Mi.


A Estrutura Social é Obra dos Homens

Jardim São Carlos - São Miguel Arcanjo - SP. Foto Duda Corrêa

Nosso conflito começa quando mais de cento e vinte e quatro milhões de sul-americanos espalhados por todo o continente, já no início da segunda década do século vinte e um, são desesperadamente pobres, e mais de cinquenta e um milhões de habitantes dos países da América do Sul são considerados pela Organização das Nações Unidas, como indigentes.
Diante do modo social de vida denominado modernidade, racional, de desenvolvimento científico, tecnológico e econômico apurados, que assume como própria as pretensões de liberdade, igualdade, riqueza e propriedade para todos, surge uma face irracional, presente e exposta nos rostos das crianças de rua, do analfabeto, do sem-teto, do índio e sua cultura subjugada, do negro das periferias das cidades, do faminto, dos velhos sem lugar na sociedade de consumo, do trabalhador do campo explorado, do jovem sem perspectivas de futuro, do civil desprovido de seus direitos, etc. Frente às injustiças e perversidades que determinam a existência negativa das vítimas, surgem vozes, muitas vozes, que em meio ao desalento e à miséria persistente em nosso continente, clamam pela vida.
Em São Miguel Arcanjo as proporções de pobreza são ainda maiores. Segundo dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento Social e do Estado de São Paulo, um terço da população são-miguelense vive na linha da miséria, e outro um terço da população um pouco acima dela.
Como pobreza, entendemos não apenas a questão econômica, mas sim a impossibilidade de produção, reprodução e desenvolvimento da vida humana. É a falta de cumprimento das necessidades. A pobreza é a impossibilidade da reprodução físico-biológica, histórico-cultural, científico, estético, místico e ético da vida. A pobreza, não apenas econômica, impede o desenvolvimento da vida concreta do ser em sua realidade. O intelectual brasileiro Milton Santos afirma que o termo ‘pobreza’ não só implica um estado de privação material como também um modo de vida – e um conjunto complexo e duradouro de relações e instituições sociais, econômicas, culturais e políticas criadas para encontrar segurança dentro de uma situação insegura. A medida da pobreza é dada antes de mais nada pelos objetivos que a sociedade determinou para si própria. Trata-se, portanto, de uma categoria política acima de tudo.
Mas não apenas da política partidária e apolítica de posição ou oposição que estamos acostumados. E sim, da responsabilidade de cada ser humano na construção do espaço em que vive. A qualidade do meio em que vivemos e proporcionamos aos nossos jovens, é proporcional a nossa capacidade de pensar, se posicionar e nossa competência em agir. O mais grave problema social produzido pela modernidade, a miséria, produtora e reprodutora de diversas crueldades tais como consumo abusivo de crack, prostituição infantil, trabalho infanto-juvenil semi-escravo, é determinada pela forma que escolhemos para nos organizar como sociedade. Cabe-nos, portanto, determinar outros objetivos para nós. Porque, como diz Paulo Freire, se a estrutura social é obra dos homens, sua transformação será também obras dos homens.

Um abraço,
Tiago Mi.

Tiago Mi é Mestre em Ciências – Sociologia Política e Ética - pela Universidade de São Paulo - USP. Possui treze anos de experiência com crianças e adolescentes que vivem sob a violação de direitos. É sócio-fundador e Vice-Presidente da ONG Ação Cultural Terra Pura em Florianópolis – SC, Presidente do ASASS, idealizador e coordenador do Projeto Faz Parte Desse Nosso Carnaval e sócio-fundador do Movimento Capital Juvenil em São Miguel Arcanjo – SP.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Somos como Éramos - Tiago Mi


Somos como Éramos


Jardim São Carlos - São Miguel Arcanjo - SP - Foto de Duda Corrêa


Em mil e quinhentos, quando chegaram os portugueses ao Brasil, não encontraram, de imediato, algo que pudesse gerar altos lucros em um curto espaço de tempo. A ilha Brasil ficou ainda adormecida por alguns anos. Adormecida do ponto de vista europeu, pois havia aqui um povo vivo, bonito, que brindava a vida e vivia para viver. Cristóvão Colombo, antes dos portugueses, chegou a escrever para sua majestade, o rei da Espanha, que estes homens e mulheres “amam uns aos outros como amam a si mesmos” (...), “e não há, Vossa Alteza, no mundo, povo mais bondoso do que este”. Sendo assim, continuou Colombo: “Vossa Alteza levará a riqueza que conseguir carregar, e fará quantos escravos quiser”.  De fato foi o que houve em toda a América do Sul.
Logo os portugueses encontraram no Pau-Brasil uma coloração avermelhada que agradava ao mercado europeu. Em pouco tempo, todas as madames e socialites de Londres e redondezas andavam de vermelho pelos salões e eventos sociais da elite européia. Por aqui, no início, os índios retiravam da mata virgem os valiosos troncos e carregavam os navios portugueses de bom grado, em troca de espelhos e especiarias. Com o tempo, começaram a achar estranho. Os portugueses roubaram suas terras – terras estas que eram de todos - e forçaram os índios a fazerem o trabalho do qual não mais se interessavam.  Por muito tempo, esses homens e mulheres, “ex-livres”, encheram de madeira centenas ou milhares de navios e os viram partir para o velho mundo. A depressão tomou conta de um povo que vivia. Os índios simplesmente se deixavam morrer. As índias matavam os recém-nascidos, pois não queriam seus filhos levando uma vida da qual não se vivia para si, e sim, para a ambição e os lucros de outros. Londres se ocupava em produzir a valiosa tinta, e lucrou com isso. O Brasil, esse Brasil que conhecemos, nasce de um povo que teve usurpada sua felicidade, seus sonhos, suas vidas.  
Em dois mil e doze, nossas terras continuam baratas, nossa mão-de-obra também. Não é qualificada, não a qualificamos. É menor o salário de subsistência do que mantê-los como escravos e ter que sustentar suas famílias. Esse foi um dos principais motivos que aboliu a escravidão.
Sentado em alguma praça de nossa cidade, observo “navios estrangeiros”, com rodas, levarem embora nossa madeira. Uma massa jovem carrega toda essa riqueza. As terras não são mais da nossa gente. Estão nas mãos de empresas. Uma massa de trabalhadores não trabalha, não planta, não vive mais para si. Sobrevive. Milhares ou milhões de reais viram as costas para nós todos os anos deixando um rastro de miséria, pobreza, diferença social. Junto a toda a matéria-prima que produzimos e carregamos nos navios movidos a grandes rodas, vão as possibilidades de um futuro digno, nossos sonhos e perspectivas. Somos como éramos.


Um abraço,
Tiago Mi

sábado, 16 de junho de 2012

Entrevista

Entrevista cedida por mim ao professore Elóy Simões exposta no Portal da Universidade do Sul de Santa Catarina - UNISUL, onde cursei Comunicação Social. Elóy Simões é um dos gurus da Publicidade e do Marketing brasileiros. Dentre todas suas atividades e históricas propagandas, está aquela: Leite condensado, caramelizado, com flocos crocantes e cobertos com um delicioso chocolate....

Segue link da entrevista:

http://www.unisul.br/unisulhoje/ver-entrevista.html?noticia.id=68592