terça-feira, 17 de abril de 2012

Utopia Factível por Tiago Mi

Utopia Factível


                                                        Arte de Gabriele Cassalho e Deko

Nosso conflito começa quando mais de cento e vinte e quatro milhões de sul-americanos espalhados por todo o continente, já no início da segunda década do século vinte e um, são desesperadamente pobres, e mais de cinqüenta e um milhões de habitantes dos países da América do Sul são considerados pela Organização das Nações Unidas, como indigentes.
Diante do modo social de vida denominado modernidade, racional, de desenvolvimento científico, tecnológico e econômico apurados, que assume como própria as pretensões de liberdade, igualdade, riqueza e propriedade para todos, surge uma face irracional, presente e exposta nos rostos das crianças de rua, do analfabeto, do sem-teto, do índio e sua cultura subjugada, do negro das periferias das cidades, do faminto, dos velhos sem lugar na sociedade de consumo, do trabalhador do campo explorado, do jovem sem perspectivas de futuro, do civil desprovido de seus direitos, etc. Frente às injustiças e perversidades que determinam a existência negativa das vítimas, surgem vozes, muitas vozes, que em meio ao desalento e à miséria persistente em nosso continente, clamam pela vida.
Para elas, a legalidade do sistema formal vigente deixou de ser legítima. Tanto por não terem participado do acordo original ao sistema, quanto e principalmente, porque diante de tal sistema não podem viver. A existência empírica de vítimas justifica a transformação ou a criação de normas, atos, instituições ou sistemas completos de eticidade que afirmem a elas a possibilidade de viver.
Portanto, se concordamos com Paulo Freire ao dizer que a estrutura social é obra dos homens e que, se assim for, a sua transformação será também obra dos homens, trata-se, portanto, dos homens, de transformar a negatividade exposta e presente na vida das vítimas, na afirmação da vida humana, no “bem”. O “bem” é um momento do próprio sujeito humano; é um modo de realidade pelo qual a vida do sujeito humano encontra-se plenamente realizada segundo os pressupostos da própria realidade humana: é uma obra fruto do auto-reconhecimento, auto-re-sponsabilidade, autonomia portanto, comunitária, inovadora, que poderia ser resumida em seu momento especificamente ético e crítico: o “bem” supremo é a plena reprodução da vida humana das vítimas. Plena reprodução que significa que o faminto come, o nu se veste, o sem-teto habita, o analfabeto escreve, o sofredor se alegra, o oprimido é igual a todos, o que usa o tempo para viver mal tem tempo livre. É quando a vítima pode contemplar a beleza, quando a cultura subjugada pode dançar seus valores, viver suas tradições, e o sujeito ser plenamente humano nos níveis superiores das criações espirituais da humanidade.
Um abraço,
Tiago Mi

terça-feira, 3 de abril de 2012

A Favor da Maré 2012 - Tiago Mi

A Favor da Maré




Nelson Mandela disse uma vez: pode ser que ainda estejam longe os dias em que as nações irão transformar grandes exércitos em poderosos movimentos pela paz e armas mortíferas em lâminas de arado. Mas é uma fonte de real esperança a existência de organizações mundiais, governos e pessoas que lutam com ardor e coragem pela paz mundial.”

Somos sete bilhões de seres humanos vivendo no planeta Terra. Bilhões de formas diferentes de ver e entender a vida. Culturas distintas, formas de viver, de se relacionar, de rezar, meditar, cantar, dançar, se expressar, de pensar. Uma riqueza humana infinita. Uma capacidade imensa em criar. A criatividade seja talvez o nosso maior dom. Fazemos arte, fazemos amor, construímos cidades, fazemos tecnologia. Conseguimos nos transportar pelos oceanos, pelos céus, pelas terras. Nos comunicamos daqui com o resto do mundo. Somos sete bilhões de seres humanos vivendo no planeta. Mais de quatro bilhões não têm acesso a toda essa beleza. Dois terços da população vivem na miséria ou são desesperadamente pobres, à margem de toda a nossa criação.

Diante do modo social de vida denominado modernidade, racional, de desenvolvimento científico, tecnológico e econômico apurados, que assume como própria as pretensões de liberdade, igualdade, riqueza e propriedade para todos, surge uma face irracional, presente e exposta nos rostos das crianças de rua, do analfabeto, do sem-teto, do índio e sua cultura subjugada, do negro das periferias das cidades, do faminto, dos velhos sem lugar na sociedade de consumo, do trabalhador do campo explorado, do jovem sem perspectivas de futuro, do civil desprovido de seus direitos. A desigualdade social, a falta de oportunidades, a imposição de culturas sobre outras, a ideologia da felicidade através do consumo (consumo logo existo), a violência, a busca incessante pelo lucro, a riqueza, a pobreza, são todas as faces de uma mesma moeda. Um é causa e conseqüência do outro. Vivemos num ciclo vicioso. Em pequenas ações, nem percebemos que fazemos parte desse ciclo e que colaboramos com a “felicidade” material de um terço das pessoas, enquanto transportamos todas as conseqüências desse nosso jeito de pensar e entender a vida à maioria de nós. Nossos filhos morrem assaltados, nossos filhos morrem assaltando. Nossos filhos vendem drogas, nossos filhos se perdem nelas. Toda uma geração de crianças e adolescentes vive sem estrutura, sem oportunidades, sem acesso ao conhecimento e às maravilhas das quais fomos e somos capazes de criar. Toda a nossa criação, o dinheiro que geramos socialmente, os conhecimentos que adquirimos estão nas mãos de poucos. E não é à toa. Não é a evolução natural da espécie. Há por traz de tudo isso o interesse de alguns. Porém, frente às injustiças e perversidades que determinam a existência negativa das vítimas, surgem vozes, muitas vozes, que em meio ao desalento e à miséria persistente, clamam pela vida. Nunca na história da humanidade tivemos tantas possibilidades de resolver os problemas causados pelas injustiças de séculos, como temos hoje. Vivemos num momento histórico em que somos capazes de alimentar a fome do “bem viver” do planeta. Pessoas como Nelson Mandela e outras milhões de pessoas comuns espalhadas por aqui e pelo mundo dedicam suas vidas para assegurar direitos, combater as injustiças e gerar dignidade. Essa massa de verdadeira solidariedade luta contra a maré. Vamos propor um outro mundo, vamos fazer essa luta ser a maré. E que São Miguel Arcanjo, nesse ano importante, acorde pra essa realidade.

Um abraço,
Tiago Mi

terça-feira, 13 de março de 2012

O Correto a Se Fazer: "Máfia da Merenda"

Há alguns meses, comuniquei em Audiência Pública que em uma cidade rodeada de fazendas, o dinheiro da refeição diária de 6 mil alunos em São Miguel Arcanjo era investido nos champagnes do Presidente da COAN, empresa que fornece a merenda escolar para nossa cidade. Hoje essa empresa é uma das principais indiciadas pelo Ministério Público do Estado de São Paulo por corrupção na chamada "Máfia da Merenda". São 57 cidades envolvidas. O correto a se fazer numa cidade como a nossa, é investir mais de um milhão e meio de reais - dinheiro referente à alimentação escolar - na agricultura familiar do município. Isso gera trabalho e emprego digno, permite com que os jovens fiquem no campo, além de fazer com que todo esse dinheiro fortaleça a economia da cidade. Cidade essa, que possui os piores índices de renda do Estado de São Paulo. E isso não acontece à toa. Portanto, além de não fazermos o que é necessário para a "vida boa" da nossa população, damos de bandeja milhões de reais para uma empresa corrupta que fornece uma alimentação de péssima qualidade para nossas crianças e adolescentes.

Segue matéria da Folha de São Paulo de 12 de março de 2012

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1060564-promotoria-denuncia-35-por-envolvimento-na-mafia-da-merenda.shtml


Após quatro anos de investigação, o Ministério Público de São Paulo denunciou (acusou formalmente) 35 pessoas, entre elas 7 empresários e 20 executivos, suspeitos de conluio para fraudar licitações da merenda escolar em várias prefeituras do Estado, inclusive a de São Paulo.
A "máfia da merenda", como foi chamado o grupo, é acusado pelos crimes de formação de cartel, fraude à licitação, corrupção ativa e passiva, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro.
Segundo a Promotoria, as empresas eram beneficiadas nas licitações e, em troca, pagavam uma porcentagem a funcionários municipais, além de emitir notas fiscais falsas.
Além dos empresários e executivos, foram denunciados "testas de ferro" (quem empresta o nome para encobrir o de outro), dois advogados e o secretário municipal de Saúde, Januário Montone. Ele é acusado de ter recebido R$ 600 mil de propina quando era secretário estadual de Gestão, em 2007.
A denúncia, oferecida na quarta-feira (7), ainda não foi apreciada pela Justiça. Caso seja aceita, será aberto processo criminal contra os acusados.
Foram denunciados os empresários Eloíso Afonso Gomes Durães, da SP Alimentação; Valdomiro Francisco Coan e Geraldo João Coan, da J. Coan; Marco Aurélio Ribeiro da Costa, da Sistal; Sérgio de Nadai e Fabricio Arouca de Nadai, da Convida, e Ignácio de Moraes Junior, da Nutriplus.
Três nutricionistas do Departamento de Merenda Escolar do Estado também vão responder a processo criminal.
Todos os envolvidos negam as acusações.

ESQUEMA

A Promotoria aponta que o esquema começou em 2001, era sofisticado e contava com líder, secretário, tesoureiro e pessoas responsáveis pela corrupção de funcionários públicos.
Segundo a denúncia, os empresários utilizavam códigos para contabilizar os pagamentos ilegais a esses funcionários, inclusive de outros Estados, bem como a várias empresas "fantasmas".
Além do esquema na merenda, é atribuído aos acusados o financiamento irregular de campanhas políticas em vários Estados.


terça-feira, 6 de setembro de 2011

A Negação da Vida Humana



Apoiados principalmente no filósofo argentino Enrique Dussel em sua obra “Ética da Libertação”, indo até Marx, antes de falarmos sobre a Negação da Vida Humana, vamos afirmá-la. Afirmar a vida em todas as suas astúcias, em toda sua complexidade, em toda sua riqueza. Afirmá-la no valor de cada sujeito como um ser único, autônomo, realizador, construtor da história. Afirmamos o valor à vida. Reconhecemos no “Outro” um sujeito humano. Por humana entendemos a vida em toda sua complexidade e riqueza, em seu nível físico-biológico, histórico-cultural, ético-estético e até místico-espiritual, sempre num âmbito comunitário, em sua vida em comunidade. A possibilidade da reprodução da vida humana em todas as suas esferas, seu desenvolvimento cultural, científico, estético, místico e ético, é a Afirmação da Vida Humana.  É o respeito à vida, ao valor da vida concreta de cada sujeito autônomo, sensível, dono de si, dono de sua realidade, de sua história e construtor da história, em todas as suas possibilidades de desenvolvimento. O sujeito humano por si só é rico, nasce rico. E por essa riqueza, entendemos toda aquela objetividade e subjetividade intrínseca ao ser.
Nos últimos cinco anos do século XX, a pobreza a nível mundial atingiu 400 milhões de pessoas. “Entramos” no século XXI com 1,5 bilhões de pessoas desesperadamente pobres e mais de um bilhão sobrevivendo com uma renda diária que não chega a um dólar, inclusive nos países desenvolvidos, assinalava a Organização das Nações Unidas (ONU). Hoje somos estes 2,5 bilhões de pessoas vivendo na linha da miséria, e mais 2 bilhões sobrevivendo um pouco acima dela. Mais de dois terços da população mundial vive para sobreviver.
Como pobreza, entendemos não só a questão econômica, mas sim a impossibilidade de produção, reprodução ou desenvolvimento da vida humana; é falta de cumprimento das necessidades, de todas aquelas enumeradas, de toda a riqueza intrínseca do sujeito humano. A pobreza é a impossibilidade da reprodução físico-biológico, cultural, científico, estético, místico e ético da vida. A pobreza, não apenas econômica, impede o desenvolvimento da vida concreta do ser em sua realidade.
Neste ponto, entramos no valor do trabalho, do trabalho vivo. O censo comum nos ensina que todo o trabalho é digno. De fato, o ato de trabalhar, onde quer que seja, para se auto-sustentar ou sustentar sua família, é digno. Porém, o trabalho em si não o é, necessariamente. Quando não oferecemos oportunidades, acesso ao conhecimento, ao esporte, ao lazer, à arte e à cultura, à profissionalização, quando não garantimos uma estrutura firme onde o jovem possa caminhar para alçar seus próprios vôos e se desenvolver em toda sua riqueza, negamos o direito à Vida. Esta “Negação da Vida Humana” o leva a trabalhos (in)dignos (termo usado pelo sociólogo Jessé Souza em seu livro “A Ralé Brasileira), trabalhos que limitam, reduzem toda a riqueza humana, todas as possibilidades da vida humana, em simplesmente força braçal. Apoiados em Marx, afirmamos ser este trabalho, quando praticado não por escolha mas pela falta de outras oportunidades, o alienante, injusto, vitimisista, sacrificante. Conseqüência de uma estrutura histórica que nega a vida do trabalhador, que o oprime, desrealiza, empobrece e mata em toda as esferas da afirmação da vida. E porque mata a vida do sujeito humano e produz vítimas, é um sistema perverso, injusto. É exatamente o que chamamos de “Negação da Vida Humana”.
A manutenção de tal realidade vem do instinto da autoconservação de quem detém o poder. Vem da omissão de quem compreende a realidade. O instinto de autoconservação dos que chamamos de “Guardiões do Atraso”, faz com que as ações destes, detentores do poder econômico, político e social, e de todos os outros omissos ou que não enxergam outras formas de viver, sejam voltadas à manutenção do status quo. O medo da mudança faz com estes homens privilegiados em determinadas sociedades, utilizem destes privilégios e do poder a eles atribuído, para impedir que outras possibilidades e oportunidades estejam presentes no cotidiano de suas vítimas. Quando as vítimas se entendem submersas nesse sistema e agem para transformá-lo, cabe aos “Guardiões do Atraso” subjulgar e enfraquecer as ações que visam a mudança da realidade. Nossa forma de viver, o meio em que vivemos, podem ser organizados de outras maneiras. Podemos construir um espaço a favor do desenvolvimento da vida. Podemos nos organizar de uma forma em que mais pessoas comam bem, morem bem, trabalhem bem, vivam bem. Podemos viver a favor da Afirmação da Vida Humana. É apenas uma questão de escolha.

Um abraço,
Tiago Mi.


terça-feira, 7 de junho de 2011

A Goiabeira - Tiago Mi

A Goiabeira

Foto: Duda Corrêa - Jardim São Carlos - São Miguel Arcanjo

Em um colégio de nossa cidade, em algum dos nossos bairros rurais rodeados de fazendas e plantações, uma professora, neste ano de dois mil e onze, esperançosa, propôs uma idéia aos seus trinta e dois ou trinta e três alunos de quatorze, quinze ou dezesseis anos: “coloquem nessa caixa, seus sonhos”. Dentre todos, uma menina sonhou grande. Gostaria de viajar, conhecer o mundo, novas culturas, pessoas diferentes. Essa menina, sonhadora, se mostrou uma Goiabeira, com seus frutos começando a brotar, em meio a milhares de pinheiros. Suas colegas, “pinheiros fêmeas”, escreveram em um papel e botaram na caixa de sonhos seus desejos de terem muitos homens. Seus colegas, “pinheiros machos”, sonham em ter muitas mulheres e uma moto.
Se este texto se propusesse a falar dos sonhos destes jovens, acabaria por aqui. Mas continuo escrevendo pra você, Goiabeira. Pra você que olha ao redor e vê um monte de gente igual, reta, falando as mesmas coisas, que pra você não fazem tanto sentido. Você se sente diferente, Goiabeira, e começa a achar que todo mundo está certo e você, a única errada. É difícil ter sonhos no meio em que você vive. Tanto é que dentre tantos, só você sonha. E esse simples fato, que pareceria ser o natural, te faz tão diferente. Mas, mais difícil, é concretizar seus sonhos nessa nossa realidade. Um homem sábio me disse uma vez: “Há pessoas e pessoas”. Os “iguais” irão te travar. São ótimos em dizer que você não é capaz. Não adianta tentar, Goiabeira, eles dizem. Mas perdoe-os. Eles têm medo de errar, sempre tiveram. São covardes. Muitos te atrapalharão, conscientes, e encontrarão inúmeras desculpas para isso. Irão até dizer que o fazem pra você não se frustrar no futuro. Como se você também fosse covarde, como se você também tivesse medo. Sua alma é grande, Goiabeira, mas eles a querem deixar pequena como a deles. Eles querem que você seja igual a eles: “desenvolvidos?”, “racionais?”, “evoluídos?”. São, na verdade, “sem-graça”, donos de uma “razão” burra, e querem que você também o seja. Os pinheiros ao redor irão sugar toda a sua água e cobrir todo o seu sol, necessários para encherem seus frutos, fortalecerem seu caule, esverdearem suas folhas. Mas você é persistente. Muitas goiabeiras espalhadas por aí, como você, Goiabeira, secam antes de suas raízes criarem forças para resistir aos pinheiros. Secam antes de suas raízes encontrarem outras raízes firmes, por baixo das terras, de outras goiabeiras, poucas é verdade, espalhadas em meio a milhares de pinheiros, porém, já fortificadas, cheias de frutos, com raízes profundas na terra. Aquelas que um dia sonharam como você e continuam acreditando em sonhos. É nelas, Goiabeira, que você deve se agarrar. Há pessoas e pessoas. Estas irão te incentivar. Oferecerão a água necessária para te fortalecer, e o sol suficiente para iluminar suas folhas. Irão te apoiar enquanto você cresce, abrirão oportunidades. Dependerá muito de você, Goiabeira, mas estas te regarão, e acharão sublimes as suas frutas quando amadurecerem, e se deliciarão com seu sabor, e ficarão felizes com suas conquistas. E aí, Goiabeira, chegará o dia em que você encontrará outras goiabeirazinhas, ou limoeirozinhos, ou “alfacezinhos” em meio a milhares de pinheiros, e se tornará a luz destes. Na verdade, você já pode ser. Você pode ser a luz de quem está ao seu redor, você pode ser “as pessoas” que abrem portas, que incentivam, que emanam luz, que sonham, que acreditam e que persistem. E você pode fazer isso simplesmente com suas palavras, Goiabeira. Com sua presença, com seu sorriso. Acredite! Por mais difícil que pareça, acredite! Mesmo que tudo esteja contra você, há pessoas e pessoas. E por mais impossível que possa parecer, Goiabeira, você pode escolher qual “pessoas” você quer ser.

Um abraço,
Tiago Mi.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Tome Chuva!

Tome Chuva!

 Foto: Duda Corrêa - Jardim São Carlos - São Miguel Arcanjo

“Todos nós desejamos a felicidade e não sofrer”. É o que diz Dalai Lama. Para ele esse desejo deve ser respeitado e a felicidade é um direito universal. Todos temos o direito a ser feliz. Segundo Aristóteles, “ser feliz” é o primeiro e fundamental traço ou imperativo da figura ética do homem. Um ato Ético então, para Dalai Lama, é aquele que não fere a experiência de felicidade de outra pessoa. Um ato anti-ético é aquele que fere a experiência de felicidade de outros.
Leonardo Boff, representante brasileiro do Conselho da Terra, explica que a ética é parte da filosofia. Considera concepções de fundo acerca da vida, do universo, do ser humano e de seu destino, estatui princípios e valores que orientam pessoas e sociedades. Uma pessoa é ética quando se orienta por princípios e convicções. Diz-se, então, que tem caráter e boa índole.
Para o filósofo Enrique Dussel, "a vida humana é o conteúdo da ética”. A ética motiva-se através da vida em comunidade a partir de cada sujeito, dos valores, das virtudes, com a finalidade de se chegar à felicidade, de viver bem. Parte-se "de dentro" de cada um para a relação com o próximo, e é "um princípio universal de toda a ética [...] da obrigação de produzir, reproduzir e desenvolver a vida humana concreta de cada sujeito ético em comunidade." Uma comunidade ética, então, começa a partir da eticidade de cada um e, para construir essa eticidade, é preciso observar os direitos de cada ser humano e respeitá-los. O direito fundamental pode ser o direito à felicidade. Para Dalai Lama, "é possível estabelecer princípios éticos controladores quando tomamos como ponto de partida a constatação de que todos nós desejamos a felicidade e queremos evitar os sofrimentos”.
A Constituição Brasileira de 1988 expressa em suas linhas no Art. 227 que “é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”. Incluímos aqui o direito a sonhar. Quando não damos acesso aos nossos jovens a essas prerrogativas garantidas em constituição, cometemos um crime, violamos direitos. Ferimos a experiência de felicidade da juventude, realizamos um ato anti-ético usurpando destes o direito fundamental de todo ser humano: ser feliz.
Não somos “formados” para termos essa percepção da realidade. Somos, na verdade, em grande parte, o homus economicus, seguindo tal doutrina religiosamente, sem refletir. Sendo a cada dia, como diz Eduardo Galeano, convencidos mais e mais de que não há virtude maior do que a virtude do papagaio, do macaco, dos que imitam. De ecos de vozes alheias. Daquelas que nos fazem ser o que somos, uma cópia precária e mal acabada de uma modernidade que não chegou aqui.
A pouca noção de responsabilidade, de que somos responsáveis pelos efeitos de nossos atos, faz fortalecer a idéia de que a ética deva estar mais presente e atuante nas entranhas da sociedade. "A humanidade geme, quase sepultada pelo peso do progresso que produziu. Ela não sabe suficientemente que seu futuro depende dela. Dela depende se quiser continuar vivendo". (BERGSON). Portanto, a ética como reflexão crítica e como reflexão de projetos e utopias se torna urgente. Tanto no cidadão, o civil, quanto nos órgãos reguladores dos Estados, nas instituições de todos os tipos, principalmente educadoras, sendo essa dupla atividade oportuna e importante neste momento histórico. Durante isso, tome chuva! Faz bem e você tem esse direito.

Um abraço,
Tiago Mi.

terça-feira, 1 de março de 2011

As Maravilhas da Uva do Século XXI

As Maravilhas da Uva do Século XXI



No Jornal A Hora, um colega escreveu uma crônica sobre o semáforo de São Miguel Arcanjo. Aproveito a Festa da Uva que acabou de acontecer, e o texto do colega sobre nossa “entrada” no século XXI, para expressar minha opinião talvez um pouco distinta, em partes, do que li, e de algumas decisões dos centros de poder que tenho observado em nossa cidade.

Segundo o filósofo Michel Foucault, em seu livro “Vigiar de Punir”, a sociedade moderna é perpassada por “interpretações de fachada”, visíveis e perceptíveis por todos, que ele chama de conteúdos “manifestos”. Estas existem precisamente para esconder as “interpretações escondidas”, invisíveis e opacas para todos, que ele chama de conteúdo “latente”. Isto é, o senso comum tem uma idéia da nossa realidade. Idéia essa que esconde as reais causas dos nossos problemas, ou escondem os próprios problemas. Faz parte de qualquer cidadão que se preocupa e tem o interesse em transformar uma realidade da qual não concorda, em tentar tornar visíveis nossos problemas e suas causas para assim, debater as formas de modificar essa realidade e agir.

A Uva é talvez o nosso bem mais precioso. Vem dela grande parte da nossa riqueza. Graças à Uva, temos essa grande festa que movimenta milhares de expectadores. No evento, alguns cartazes e homenagens agradecem e exaltam os produtores rurais. Quanto aos artistas, acredito que poderíamos “usar” deste grande evento para incentivar com mais força a música e a arte local. Há muito talento escondido por aqui. Mas este é um assunto para um outro momento.

Nosso bem mais precioso, a Uva, que atrai grande parte da nossa riqueza e gera emprego a milhares de trabalhadores, ao mesmo tempo produz os nossos maiores problemas. O trabalhador rural, grande responsável por toda a produção, atuante muitas vezes sem carteira assinada, não consegue proporcionar uma vida digna a sua família com o “salário” que recebe. Está em seus filhos, jovens são-miguelenses, a falta de perspectivas de futuro. São eles quem não possuem sequer o direito a sonhar. Vivem presos a um ciclo vicioso iniciado há muito tempo. Todos os anos, a partir de outubro, muitos jovens abandonam as escolas seduzidos pelos 25 reais diários, em média, recebidos na lavoura pelo trabalho de sol a sol. Perdem o ano escolar. Às 6 da manhã os ônibus rurais passam pelo centro recolhendo os trabalhadores. Entram neles também crianças de 13, 14, 15, anos. O trabalho árduo, a falta de lazer, de esporte, de música, de cultura, de cursos, de oportunidades, de cidadania, de educação, de conscientização, gera a ociosidade que é recompensada com o consumo indevido de álcool, de maconha, de cocaína, de CRACK, de sexo indiscriminado. A Uva e a Agricultura em geral, pela forma na qual realizamos, aliada ao abandono, é a responsável em grande parte pela gravidez precoce, pela prostituição infantil, pela violência, pelos assaltos, pelas clínicas para dependentes lotadas. Há mais demandas do que vagas. É assim que, na alquimia do século XXI, a Uva se transforma em veneno na saliva do nosso povo.

Não se trata aqui de uma crítica a alguém em especial. Nem é a intenção criar inimizades. Muito pelo contrário. Temos um projeto para transformar essa massa jovem de mão-de-obra barata em sujeitos conscientes transformadores dessa realidade: o Capital Juvenil. E para tal, precisamos da união de todos, fundamentalmente, dos donos do poder. O diálogo é fundamental e ele está existindo. Apóiem-nos, unam-se a nós, invistam. Nós queremos conversar, debater, estamos dispostos a trabalhar e estamos trabalhando duro. E quanto a maior preocupação existente, esta nunca será concretizada: sempre haverá pessoas dispostas a trabalhar nas lavouras. Principalmente se ela for feita de forma justa e digna. Quanto ao semáforo, passa a ser secundário. “Entraremos” realmente no século XXI quando houver igualdade de direitos e de oportunidades (fundamentos da modernidade). Até lá, se continuarmos assim, seguiremos num desenvolvimento cruel em marcha lenta, produzindo riqueza para alguns e construindo para as vítimas da agricultura, Casas Populares.

Um abraço,
Tiago Mi.

Tiago Mi, 27 anos, é idealizador e coordenador do Movimento Capital Juvenil.  Possui 11 anos de experiência com jovens em situação de vulnerabilidade social. Formado em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda e mestrando em Sociologia Política e Ética pela Universidade de São Paulo - USP – São Paulo, é Sócio-Fundador e Vice-Presidente da ONG Ação Cultural Terra Pura em Florianópolis - SC, idealizador e coordenador do Projeto Faz Parte Desse Nosso Carnaval em São Miguel Arcanjo – SP e Presidente do ASASS (Associação São-miguelense de Assistência Social e Saúde).

domingo, 12 de dezembro de 2010

Diário de Bordo - Tiago Mi

Diário de Bordo

“São gente de amor e prestativos para tudo, e certifico as Vossas Altezas que em todo o mundo creio que não há melhor gente nem melhor terra; eles amam a seus próximos como a si mesmos, e tem a fala mais doce do mundo, e mansa, e sempre com sorriso. Eles andam desnudos, homens e mulheres, como suas mães os pariram, mas crêem Vossas Altezas que entre si têm costumes muito bons, e um rei muito maravilhoso. Em todas estas ilhas me parece que todos os homens são felizes com uma mulher. Nem se pode entender se têm bens próprios, pois me pareceu ver que aquilo que um tinha, todos faziam parte, em especial as comidas. Nestas ilhas não há homens monstruosos como muitos pensavam, mas sim, muita gente de muita beleza. Posso afirmar a Sua Alteza que lhe darão todo o ouro que quiser; especiarias e algodão o quanto carregar, e o Senhor a vende como quiser, e levará o quanto mandar carregar, e escravos o quanto mandar carregar, e outras mil coisas, o quanto puder levar.”
Estes são trechos do Diário de Bordo de Cristóvão Colombo e de uma carta que mandou ao Rei da Espanha e sua realeza quando chegou nas magníficas terras que hoje chamamos de América do Sul. Terras estas cheias de um povo que vivia livre de armas, de guerras, em harmonia, com uma população estimada em 90 milhões de habitantes espalhados em diversas etnias por todo o continente. Hoje, não passam de 3 milhões de sobreviventes. A América do Sul tem um histórico de opressão e violência por parte de quem aqui chegou com o objetivo de extrair as riquezas naturais das terras mais ricas do globo. A pólvora e a ambição falaram mais alto que a harmonia e a sabedoria de se viver, de bem viver. O ouro foi mais valioso que as vidas desses homens e mulheres. A história “oficial” nos dá a versão dos que venceram na força, a história real do decorrer dos nossos 500 anos nos explica o porquê de 47% dos nossos jovens viverem na miséria, o porquê da violência da qual somos refém. Miséria, presídios lotados, fome, falta de moradia digna, são conseqüências de um passado recente e de um presente camuflado. O conhecimento nos torna mais fortes e preparados para escolher o que quer que seja, e pra brigar pelo o que acreditamos. A história real a gente não aprende na escola por que um povo com conhecimento nunca aceitaria a realidade de um país como o nosso, do nosso Estado, do nosso município. Como diz o poeta, “a sabedoria do povo daqui é o medo dos homens de lá”.

Um abraço,
Tiago Mi


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A Locomotiva

A Locomotiva



A locomotiva do progresso segue rápida e com força. Há aproximadamente 500 anos ela chegou por aqui. Naquele tempo existia, estima-se, uma população de 90 milhões de pessoas. Foram atropeladas. Os índios não tinham muito interesse em subir na locomotiva. Todo aquele luxo não fazia sentido. De lá de dentro não podiam pisar a terra, sentir o sol, as flores, viver os rios, sentir a chuva. Mas não tiveram escolha. Esse trem desgovernado passou por cima de tudo o que havia pela frente.
Alguns anos mais tarde a locomotiva precisou ser empurrada. Foram até a África buscar forças para fazer esse serviço. E fizeram, muito bem feito. A locomotiva nunca havia andado tão depressa. E quanto mais ela acelerava, mais era necessário acelerar. Não paravam de buscar gentes africanas, fortes, guerreiras para fazer funcionar a máquina mais rica e poderosa que o mundo jamais havia presenciado. No período da Independência do Brasil, metade da nossa população era formada por esses negros escravos que se moviam movendo a locomotiva, a base de chicotadas, enquanto um outro tanto de brasileiros vivia correndo, pelo lado de fora, pegando as migalhas que caiam pelas janelas e sobrevivendo com o sonho de um dia sentar do lado de dentro. Ilusão. Não há um ser humano, humano, pilotando esse trem.
O tempo passou. Os chicotes, em teoria, foram extintos. Mas ainda são as nossas gentes que empurram e fazem correr a oitava maior locomotiva do planeta. Pra essa gente não se dão oportunidades de subir no trem. Quem o empurraria? Nem se permite consciência a esse povo. Quem está dentro tem medo da revolta dos excluídos do lado de fora. Dessa forma a gente percebe que o nosso presente é só uma continuação sem grandes mudanças do nosso passado.
O progresso é uma locomotiva guiada pela ganância, desgovernada, sem alma, sem coração, sem piedade, sem vida, sem consciência, sem escadas, sem escolhas.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

8 de Setembro


Era a mais entusiasmada da turma. Sempre chegou mais cedo. Ajudava a organizar a sala, entregar aos colegas as letras de músicas, flautas, ou qualquer outro material a ser usado nas aulas de coral que freqüentava todos os sábados no colégio em meio à comunidade num morro da capital. No final, era a responsável por guardar tudo e ajeitar o espaço para as próximas atividades. Mas não fazia tudo sozinha. Tinha carisma perante os colegas que a acompanhavam nas tarefas que se encarregou por livre e espontânea vontade.
Juliana chegou à comunidade, uma favela num morro do centro da capital, com a mãe e os irmãos havia alguns anos. Vieram do interior. Lá, as muitas terras nas mãos de poucos donos cuja grande produtividade de produtos agrícolas é conseguida a custos baixos através da mão de obra barata, não ofereciam empregos a todos, muito menos qualidade de vida. O município não era inteligente para gerar oportunidades e perspectivas melhores para a mãe e seus filhos. Acreditavam que na capital teriam melhor sorte.
Nas aulas de coral e flauta aos sábados, Juliana, de 12 anos, sempre acompanhada de seu irmão mais novo, Daniel, se sentia a vontade e acreditava no que ouvia. Sabia que ali era bem-vinda. Tinha um carinho imenso pelo professor e sua equipe que, conscientes dos problemas que afetam aquelas crianças, estavam dispostos a fazer com que jovens sem perspectivas se tornassem cidadãos brigadores de seus direitos, tomassem a rédea de suas vidas e lutassem pelo que acreditavam.
O dia 8 de setembro é uma data especial na comunidade. Aquela gente pára para as festas e a procissão em homenagem ao dia de sua padroeira. Por coincidência é o mesmo dia do aniversário do professor de música do coral, que há alguns meses compartilhava ali bons momentos com a população. Naquele tempo muitas coisas foram feitas com a parceria escola e coral de música. A comunidade que antes via o professor com desconfiança passou a confiar em seu trabalho e admirar aquele jovem que ia até eles despretensioso compartilhar seus conhecimentos.
No dia 8 de setembro, junto à homenagem à padroeira, homenagearam também o professor. Foi um dos dias mais importantes de sua vida. Juliana lhe deu um cartaz desenhado e assinado por todos seus alunos. E depois, um presente em particular. Junto da mãe, Juliana comprou uma pequena imagem de Nossa Senhora e com um cartão, entregou ao professor desejando-lhe força para continuar seu trabalho e que Nossa Senhora o iluminasse por toda a vida.
Na semana seguinte Juliana não apareceu na aula de música. Ela nunca havia faltado. Logo a notícia se espalhou. Juliana e sua família foram expulsas do morro. Seu irmão mais velho devia dinheiro a traficantes que entraram em sua casa, destruíram quase tudo e levaram alguns objetos prometendo voltar. À mãe da menina não restava outra alternativa a não ser fugir com seus filhos.
Segundo a polícia nada podia ser feito. Uma minoria da favela envolta a grande maioria de trabalhadores e gente de bem consegue fazer um estrago gigantesco. Minoria esta que detém o poder onde o poder público não exerce suas responsabilidades. A polícia que atende ao chamado de uma casa onde um quadro de milhões de dólares é roubado, não se prestou a dar segurança e reaver os pertences de Juliana e sua mãe.
O Brasil é dominado por minorias. São os banqueiros, grandes agropecuários e grandes empresas nacionais e multinacionais os financiadores das campanhas de deputados, senadores, prefeitos, vereadores, governadores, presidentes... A quem irão atender ao criarem leis ou fazerem justiça, os nossos excelentíssimos governantes? À Juliana e sua família resta aprender a importante lição do valor de seu voto, trocado, como vemos em todos os lugares, por cestas básicas, favores, combustíveis ou empregos. Muitos dos nossos governantes estão lá financiados por grandes empresas e eleitos pela compra de votos. Não é de seus interesses informar e educar esses eleitores. Muito menos promover políticas públicas que gerem censo crítico na população. Quanto mais conscientes forem as pessoas, mais difícil será a conquista desses votos.
Aos que tiveram a oportunidade de aprender essa lição, resta a opção de deixar como está, ou de fazer algo para reverter. As conseqüências do desinteresse por uma educação conscientizadora, de comida e moradia digna para todos e principalmente de governantes de qualidade, afetam a todos nós. Num país em que muitas vezes se opta por votar no “menos pior” por falta de escolha, resta acreditar na união das pessoas conscientes. Trata-se de uma força e um poder sem igual que precisamos aprender a usar.
Aos colegas de Juliana fica a saudade. Violências são freqüentes na vida daquelas crianças, tornando, infelizmente, esse tipo de acontecimento, natural. Ao professor ficam o sentimento de impotência, as lembranças daquele sorriso sincero e o presente que é guardado como o objeto mais valioso que possui.