terça-feira, 17 de abril de 2012

Utopia Factível por Tiago Mi

Utopia Factível


                                                        Arte de Gabriele Cassalho e Deko

Nosso conflito começa quando mais de cento e vinte e quatro milhões de sul-americanos espalhados por todo o continente, já no início da segunda década do século vinte e um, são desesperadamente pobres, e mais de cinqüenta e um milhões de habitantes dos países da América do Sul são considerados pela Organização das Nações Unidas, como indigentes.
Diante do modo social de vida denominado modernidade, racional, de desenvolvimento científico, tecnológico e econômico apurados, que assume como própria as pretensões de liberdade, igualdade, riqueza e propriedade para todos, surge uma face irracional, presente e exposta nos rostos das crianças de rua, do analfabeto, do sem-teto, do índio e sua cultura subjugada, do negro das periferias das cidades, do faminto, dos velhos sem lugar na sociedade de consumo, do trabalhador do campo explorado, do jovem sem perspectivas de futuro, do civil desprovido de seus direitos, etc. Frente às injustiças e perversidades que determinam a existência negativa das vítimas, surgem vozes, muitas vozes, que em meio ao desalento e à miséria persistente em nosso continente, clamam pela vida.
Para elas, a legalidade do sistema formal vigente deixou de ser legítima. Tanto por não terem participado do acordo original ao sistema, quanto e principalmente, porque diante de tal sistema não podem viver. A existência empírica de vítimas justifica a transformação ou a criação de normas, atos, instituições ou sistemas completos de eticidade que afirmem a elas a possibilidade de viver.
Portanto, se concordamos com Paulo Freire ao dizer que a estrutura social é obra dos homens e que, se assim for, a sua transformação será também obra dos homens, trata-se, portanto, dos homens, de transformar a negatividade exposta e presente na vida das vítimas, na afirmação da vida humana, no “bem”. O “bem” é um momento do próprio sujeito humano; é um modo de realidade pelo qual a vida do sujeito humano encontra-se plenamente realizada segundo os pressupostos da própria realidade humana: é uma obra fruto do auto-reconhecimento, auto-re-sponsabilidade, autonomia portanto, comunitária, inovadora, que poderia ser resumida em seu momento especificamente ético e crítico: o “bem” supremo é a plena reprodução da vida humana das vítimas. Plena reprodução que significa que o faminto come, o nu se veste, o sem-teto habita, o analfabeto escreve, o sofredor se alegra, o oprimido é igual a todos, o que usa o tempo para viver mal tem tempo livre. É quando a vítima pode contemplar a beleza, quando a cultura subjugada pode dançar seus valores, viver suas tradições, e o sujeito ser plenamente humano nos níveis superiores das criações espirituais da humanidade.
Um abraço,
Tiago Mi

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